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Granjinha/Cando

e Vale de Anta... factos, estórias e história.

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Estórias da Granginha...

16
Mai11

 

“A Ribeira da Granginha”

  

Naquele mês de Julho dos anos cinquenta, o calor do Verão transmontano apertava mais do que o costume.

Aldrabando a hora da sesta, a Hermínia (sempre pronta para a brincadeira, e a fazer de D’Artagnan), mai-los três gandulitos da Aldeia, juntaram-se debaixo da amoreira gigante, lá no fundo do “Campo”.

Ao calor daquela tarde de Verão juntou-se-lhes o calor do entusiasmo de irem dar um mergulho no rio.

A Hermínia ficou, para despistar a mãe Teresa e a avó Conceição.

Da “Sobreira” até à “Ribeira da Tia Maria do Campo” foi sempre a descer.

E os seus passos largos eram dados com mais rapidez do que o galope dos burros do Ti ‘António Guarda, quando os vergastava para subirem o “Campo”, desde a fonte até ao palheiro, lá no cimo, no caminho de quem vai para “Vale Coelho”.

Chegados à Ribeira, encostadinha ao rio Tâmega, antes da Estação de Curalha, ficam em pelota e tomam conta daquela piscina olímpica, que consideravam sempre sua, só por estar em frente à vinha e ao campo de melancias da Tia Maria do Campo.

Mergulhavam e apanhavam à mão uns escalos e umas bogas.

O Júlio era o mais «águia» a nadar. Era o único que conseguia atravessar, de lado a lado, debaixo de água. Nem uma lontra lhe ganharia!

Ali, a Ribeira, era pouso dos “três mosqueteiros”, no tempo das melancias, na vindima e no tempo do rebusco.

O regresso era feito com a mesma festa da ida. Só que o passo largo da descida passava a passo estreito na subida, e o galope dos burros da Tia Quinhas, que eram os mesmos do Ti’António Guarda, ficava substituído pelo passo pausado dos bois do Tio Quim quando, à noitinha, regressavam da fonte para a corte.

Para disfarçar o cansaço, atiravam umas pedritas aos pássaros, entretinham-se a cercar os lagartos e lagartixas, paravam para mostrar, uns aos outros, o lugar por onde passou um lobo, ou atravessou uma raposa, ou, ainda, por onde se «raspou» um “vestigo”.

E inventavam histórias de moinantes e de ladrões; de mouros e contrabandistas; e de aventuras dos Portugueses por esse mundo fora.

No cimo da “Aberta da Ti’Aurora” era o território do Bicho-da-Unha ou Lacrau.

Com os «palhitos» roubados da caixa com que lá em casa se acendia a lareira, guardadinhos numa «caixa de fósferos» deitada fora pela mãe Teresa ou pela Avó São, e que a Hermínia estava sempre pronta para apanhar e oferecer como troféu ao “Marthos”, “Julithos” e “Luisarmis”, acendiam uma fogueirita para onde lançavam os lacraus, na expectativa de comprovarem a heroicidade destes, que espetavam a unha do veneno no próprio corpo para encurtar o sofrimento semelhante ao das almas «nas profundezas dos infernos»!

Como grande nadador que era, o “Julithos” conseguiu atravessar o Atlântico.

O “Marthos” montou tenda na Terra Quente, ali ao lado, a fiscalizar as contas da vida.

O “Luisarmis” cumpriu missão na “Cabeça da Cobra”, e, com o coração dorido, chora de saudade, pelas praias da Senhora d’Ajuda.

A Ribeira da Granginha!

 

 

Luís da Tia São

 

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